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Do livro Maturidade em TI · capítulo 2 · As 7 dimensões

Como medir a maturidade de um profissional de TI

Como medir a maturidade de um profissional de TI?

Por Vinícius Graciano ·

Você mede a maturidade de um profissional de TI por dimensão: sete no total, três universais e quatro específicas da função, cada uma com nota de 1 a 5 pela escala Dreyfus. A dimensão com a nota mais baixa mostra onde a carreira travou, e o tempo de carteira fica fora da conta.

Esse é o método do capítulo 2 do meu livro Maturidade em TI. Boa parte da minha carreira eu medi errado, pelo cargo e pelo número de linguagens no currículo. A régua abaixo é o que sobrou depois de testar em mim, nos times que liderei e nas pessoas que mentorei.

Por que anos de experiência não medem maturidade?

O mercado ainda contrata e promove como em 1998: tempo de carteira, certificação, último cargo no LinkedIn. Essa régua erra para os dois lados.

Eu já tive no mesmo time dois devs com a mesma stack, a mesma faculdade e o mesmo cargo entregando valores muito distantes. Já entrevistei gente com dez anos de casa que ainda esperava alguém dizer o que fazer, e gente com dois anos pronta para virar tech lead. O que separava os dois grupos era simples: um sabia em qual dimensão estava fraco e atacava; o outro esperava a senioridade chegar por antiguidade.

Ela não chega. Ano de carteira registra quanto tempo você ficou sentado. A pergunta que interessa é o que você virou nesse tempo.

Quais são as 7 dimensões da maturidade em TI?

Toda função técnica se decompõe em sete dimensões mensuráveis.

As três universais, iguais para dev, QA, DevOps, PM, designer ou gestor:

  1. Comunicação e Influência (U1). Adaptar a linguagem para quem ouve, dar visibilidade ao que entrega e mover decisão sem ter cargo.
  2. Visão de Produto e Negócio (U2). Saber por que a tarefa existe, ler métrica e questionar prioridade com argumento.
  3. Gestão de Carreira (U3). Ter plano escrito, clareza do próximo nível e assumir a própria evolução.

As quatro específicas mudam com o papel. Para quem desenvolve: domínio técnico, arquitetura e design, entrega e qualidade, liderança técnica. Para DevOps: infraestrutura e automação, confiabilidade e observabilidade, segurança, escalabilidade. Para engineering manager, a quarta é calibração técnica, porque gestor que não lê código nem senta em decisão de arquitetura perde autoridade técnica e fica só com o crachá.

Eu não inventei essas dimensões. Sou autodidata, estudei os frameworks que já tinham prova de campo (T-Shaped de Tim Brown, Jobs to Be Done de Clayton Christensen, Engineering Ladders de Jorge Fioranelli, os arquétipos de Staff de Will Larson, entre outros), apliquei pedaços nos times e mantive o que funcionava. A lista é curadoria testada em operação, com o crédito de cada fonte no livro.

Repare que as três universais aparecem para todo mundo. Na minha leitura de campo, é nelas que a maioria trava, e é por elas que você vai ser avaliado na próxima entrevista, qualquer que seja a stack.

Como dar nota de 1 a 5 em cada dimensão?

A escala vem do modelo de Stuart e Hubert Dreyfus, da Universidade da Califórnia em Berkeley (1980), usado para classificar habilidade em medicina, enfermagem e engenharia. Adaptei para TI assim:

Nota Nível Como você opera
1 Iniciante Segue regra e precisa de instrução para cada passo
2 Competente Junta peças, mas depende de checklist em contexto novo
3 Proficiente Resolve sozinho dentro do conhecido, com julgamento
4 Experiente Antecipa problema, cria heurística própria, mentora
5 Especialista Define o padrão que o time segue

Para cada dimensão, pense numa situação concreta da última semana. Na U1, por exemplo, lembre a última reunião em que você precisou defender uma decisão. Você seguiu roteiro, improvisou com base em princípio ou previu o que ia acontecer? A resposta classifica.

Uma regra que eu cobro de todo mentorado: ficou entre 2 e 3, marca 2. Todo mundo infla a própria nota. “Maturidade é admitir piso, não pintar teto.”

Como fica um diagnóstico real?

Júlia (nome trocado, números reais, com permissão dela) era dev pleno havia três anos, com React, Node e Postgres em dia e entregas no prazo. Estava parada havia 18 meses no mesmo nível e no mesmo salário. Convencida de que faltava técnica, comprou três cursos de arquitetura e dois de TypeScript avançado. Continuou parada.

O radar dela contou outra história: domínio técnico em 4, arquitetura e entrega em 3. Comunicação, gestão de carreira e liderança técnica, todas em 1. Ela não comunicava o impacto do que entregava, não tinha plano de carreira e nunca tinha mentorado ninguém. Para a empresa, era “uma dev que entrega”, coisa que um pleno faz sem esforço.

Em 90 dias, sem curso novo, ela fez três coisas:

  • Passou a mandar, toda sprint, três linhas no canal do time com o resultado para o negócio do que tinha entregado. Em seis sprints virou referência no canal.
  • Escreveu num sábado de manhã um plano de uma página (onde estou, onde quero estar em 12 meses, três evidências por trimestre) e levou ao 1:1. O gestor enxergou, pela primeira vez em 18 meses, que ela queria crescer.
  • Ofereceu 30 minutos semanais de pair programming a uma júnior recém-chegada e documentou as decisões das sessões.

Foi promovida a sênior no ciclo seguinte, cerca de nove meses depois do diagnóstico. A técnica dela não mudou nada nesse período. Como escrevi no livro, “o radar não mente. O profissional, sim. Pra si mesmo.”

Que padrões aparecem no radar?

Quando você plota as sete notas, três desenhos se repetem:

O técnico isolado. Específicas entre 3 e 4, universais entre 1 e 2. É o caso da Júlia. Ataque a U1 antes de qualquer outra coisa, porque comunicação destrava o resto.

O comunicador raso. Universais altas, específicas baixas. Fala bem em reunião e entrega pouco. Esse perfil vira “aquele que fala muito” e perde a confiança do time rápido. Passe 90 dias focado na primeira dimensão técnica da sua função antes de aceitar mais palco.

O equilibrado mediano. Tudo entre 2 e 3. O mercado não paga sênior para quem é competente em tudo e bom em nada. Escolha uma dimensão e leve até 4 em seis meses, porque escassez é o que o mercado paga.

Se você está em transição de função, de dev para PM por exemplo, diagnostique no papel que ocupa hoje. No papel novo você vai tirar 1 em tudo e travar.

Como medir a evolução sem se enganar?

Diagnóstico que ninguém reabre vira promessa de ano novo. Três regras:

  1. Reavalie a cada trimestre. Refaça o radar inteiro a cada três meses.
  2. Mova uma dimensão por vez. A meta é subir uma dimensão um nível inteiro por trimestre. Quem tenta três ao mesmo tempo não sobe nenhuma.
  3. Anote a evidência. “Acho que melhorei” não vale. “Fiz code review de arquitetura em quatro PRs e o time aceitou as sugestões” vale.

Depois do radar, faça a si mesmo três perguntas duras: qual é a sua dimensão mais baixa, há quantos meses ela está lá, e por que você não está atacando ela agora. Se travou na terceira, o problema é prioridade. Você teve tempo de maratonar série essa semana.

E se eu sou gestor e não sou técnico?

Você não preenche as sete dimensões, e a pergunta continua sendo sua. Responda seis coisas sobre o seu time: quanto ele entrega, como funciona o processo de desenvolvimento, qual é o caminho de uma demanda do pedido até a entrega, quanto você gasta em tecnologia e o que recebe por isso, com base em que a empresa se diz ágil, e qual é a maturidade das pessoas que trabalham para você.

Conte os “não sei”. Cada um é uma decisão tomada sem você, todo mês, com o seu dinheiro.

Onde ir a partir daqui

Separe quinze minutos ainda esta semana, com papel e caneta, e dê as sete notas. Marque na agenda a reavaliação para daqui a 90 dias, no mesmo dia em que fizer a primeira.

O capítulo 2 de Maturidade em TI traz a tabela das quatro dimensões específicas para nove funções, o roteiro do autodiagnóstico e os frameworks com fonte; os capítulos seguintes aprofundam uma dimensão por vez.

Baixe os 22 templates do livro e comece com o material que eu uso com os meus mentorados.

Perguntas frequentes

Tempo de experiência mede maturidade em TI?

Mede tempo de cadeira. Já vi profissional com dez anos operando como júnior em comunicação e ownership, e gente com dois anos entregando como pleno. Maturidade aparece no nível de cada dimensão, e o calendário não move esse nível sozinho.

Quais são as 7 dimensões da carreira em TI?

Três universais, que valem para qualquer função: comunicação e influência, visão de produto e negócio, gestão de carreira. Mais quatro específicas da função; para quem desenvolve, são domínio técnico, arquitetura e design, entrega e qualidade, liderança técnica.

De quanto em quanto tempo devo refazer a avaliação?

A cada três meses. A meta realista é subir uma dimensão um nível inteiro por trimestre, com uma evidência concreta anotada para cada nota que subiu.

De onde saiu este artigo

Do capítulo 2 · As 7 dimensões de Maturidade em TI, o livro em que eu escrevi o método inteiro. Aqui está a ideia aplicada; lá está o capítulo com os exemplos e os templates.

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