Para subir de nível em TI em 30 dias, você executa uma ação por dia durante quatro semanas, cada semana focada numa frente: comunicação proativa, visão de produto e foco, carreira com entrega previsível e, por último, a parte técnica da sua função. Você faz um autodiagnóstico no Dia 0, guarda sem olhar e refaz no fim, e a diferença entre as duas notas é o resultado do mês.
Nenhum salto que eu vi em carreira de TI, na minha ou nas dos times que liderei, veio de um curso de seis meses. Todos vieram de comportamento repetido até virar hábito, e é isso que o plano força.
Por que 30 dias de ação vencem um ano de leitura?
Porque a maioria dos seus colegas vai ler um livro de carreira, recomendar para um amigo, abrir o Slack e esquecer. Ler dá a sensação de progresso sem custar nada. Aplicar custa: mandar a mensagem desconfortável, bloquear a agenda, escrever o pitch de promoção que você vem adiando.
O plano tem quatro regras. Uma ação por dia, sem pular. Toda ação gera uma saída escrita, porque, como está no livro, “fiz mentalmente” equivale a “não fiz”. No Dia 0 você faz o autodiagnóstico das sete dimensões de carreira e guarda. No fim, refaz sem consultar o primeiro e compara.
O que fazer na semana 1?
A semana 1 treina você a comunicar antes, em vez de explicar depois.
No Dia 1, liste toda comunicação profissional da semana passada e marque o que foi proativo (você começou) e o que foi reativo (você respondeu). Anote o percentual. No Dia 2, mande um status no canal do time antes de fechar o expediente: o que entregou, o próximo passo e o risco, se houver. No Dia 3, avise o andamento de uma tarefa que nem está em risco. Parece bobagem, e é assim que você se acostuma a comunicar antes de ter problema.
No Dia 4, escreva em rascunho um pedido de ajuda estruturado para o tipo de problema que te travaria mais de 30 minutos: o problema, o que você já tentou, por que não funcionou e o que pretende fazer. No Dia 5, revise um PR de colega com pelo menos um comentário sobre arquitetura ou trade-off, além do estilo. No Dia 6, escreva a discordância que você engoliu na semana e decida se envia. No Dia 7, faça a revisão semanal de 30 minutos e escolha um ajuste para a semana seguinte.
E na semana 2?
A semana 2 tira você da execução no escuro e protege a sua melhor janela de concentração.
No Dia 8, preencha o Canvas da Entrega da sua tarefa atual: o que muda no negócio quando ela entregar, qual métrica ela move e o que acontece de pior se você não entregar. Travou? Pergunte ao PM antes de continuar. No Dia 9, descubra as 5 métricas-chave da empresa. No Dia 10, escreva uma frase de impacto para cada uma das suas últimas 5 entregas, e marque como “trabalho ocupacional” a que não couber em frase nenhuma. Dói menos admitir isso no papel agora do que na entrevista do ano que vem.
No Dia 11, bloqueie dois blocos de 90 minutos de trabalho focado por dia pelos próximos 14 dias e avise o time. No Dia 12, comece a definir toda manhã as 3 tarefas mais importantes do dia, antes de abrir o Slack. No Dia 13, negocie uma demanda que não cabe: “posso entregar X agora ou Y depois, qual é mais importante?”. O Dia 14 é revisão.
O que entra na semana 3?
Carreira e entrega previsível. No Dia 15, abra a trilha de carreira da sua empresa (ou o Engineering Ladders, se ela não tiver) e marque onde você está em cada eixo. No Dia 16, escreva em uma frase onde quer estar em 12 meses, com número e data. No Dia 17, escolha uma única dimensão para atacar primeiro.
No Dia 18, monte um OKR trimestral pessoal com três resultados-chave desconfortáveis. Cumprir de 60% a 70% é o ponto certo; bateu 100%, a meta estava fácil. No Dia 19, crie a pasta “Carreira / Evidências” com PRs relevantes, documentos que circularam, elogios recebidos e métricas de impacto. No Dia 20, pegue sua tarefa atual e quebre em micro-tarefas de até 4 horas. O Dia 21 é revisão.
E a semana 4?
A semana 4 ataca a parte técnica e fecha o ciclo. No Dia 22, avalie de 1 a 5 as quatro dimensões técnicas da sua função e ache a mais fraca. No Dia 23, meça seu DORA pessoal dos últimos 30 dias: PRs mergeados por semana, lead time médio, percentual de tarefas com retrabalho em produção e tempo médio para corrigir. No Dia 24, aplique o Definition of Done em toda tarefa que fechar.
No Dia 25, escreva uma RFC curta propondo algo que deveria ser padrão no time. No Dia 26, ofereça 30 minutos semanais de mentoria a alguém menos experiente. No Dia 27, revise quais comportamentos de profissional confiável você incorporou de verdade. No Dia 28, escreva o pitch de promoção de uma página: nível-alvo, cinco evidências de que você já opera nele e dois gaps com ação e data. Você não vai pedir a promoção amanhã, mas o documento vai estar pronto quando a janela abrir.
O Dia 29 é o novo autodiagnóstico. O Dia 30 fecha o mês com o que mudou, o que não pegou e o plano dos próximos 90 dias.
Como saber se os 30 dias funcionaram?
Compare o Dia 0 com o Dia 30 em cinco indicadores: nota média nas sete dimensões, status proativos por semana, percentual de tarefas mais importantes cumpridas, percentual de tarefas começadas já quebradas e evidências documentadas. Se você subiu pelo menos um nível em duas dimensões e criou três hábitos novos, o mês rodou bem.
Se ficou parado em quase tudo, sinto muito: você leu sobre os 30 dias e não executou os 30 dias.
E se eu lidero time?
Rode as duas trilhas. A diária mantém você técnico, e quatro ações semanais te forçam a agir como líder.
Na semana 1, conduza a conversa de feedback que você adia há meses: comece pelas forças, mostre dois ou três padrões que você observa há mais de 60 dias e combine uma ação para os próximos 30, por escrito. Na semana 2, audite as reuniões recorrentes do time, cancele as que não têm pauta nem decisão a produzir e institua um dia sem reunião. Quem passa de 12 horas semanais em reunião sendo contribuidor individual, ou de 18 sendo tech lead, está fazendo o trabalho de verdade em hora extra invisível. Na semana 3, escreva ou atualize a trilha de carreira do time e descubra quem está pronto para subir há mais tempo sem janela à vista. Na semana 4, publique o DORA do time e classifique os últimos 30 a 50 itens entregues por tipo de problema.
Sem trilha de carreira escrita, promoção no seu time vira política, e política é o motivo de gente boa sair sem você entender por quê.
O que fazer quando a semana sai do trilho?
Semana de incêndio, profissional ou pessoal, acontece. Pule dois ou três dias e volte; o plano de 30 dias vira um de 33 e ninguém morre por isso. O que derruba o plano é marcar ação como feita sem ter feito.
O que mais segura a conclusão é ter alguém olhando. Escolha um par, colega de time ou alguém do seu nível em outra empresa, e mande para ele toda sexta a sua revisão semanal. Ninguém precisa aconselhar ninguém. O compromisso anunciado tem custo social de abandono, e esse custo segura as semanas 3 e 4, que é onde a maioria solta a mão.
O plano muda para PM, QA, dados ou design?
Muda em três dias. No Dia 4, o PM conversa com três clientes, o QA reconstitui o bug mais caro dos últimos seis meses e o designer roda cinco testes de usabilidade no fluxo mais reclamado. No Dia 16, o objetivo de 12 meses troca entrega por métrica: o PM aponta receita influenciada, o QA mostra bugs em produção caindo e o profissional de dados documenta três decisões que o dado dele mudou. No Dia 23, cada um troca o DORA pessoal pela régua da própria função.
Abra o calendário agora e marque o Dia 0. Depois marque o dia 120, o 210 e o 300, que são as datas de refazer o ciclo.
Onde aprofundar
O capítulo 13 de Maturidade em TI traz os 30 dias com a saída esperada de cada um, os templates de mensagem, as tabelas de medição para quem executa e para quem lidera e as variações completas por função. O livro está na Amazon: Maturidade em TI, de Vinícius Graciano.
Baixe os 22 templates do livro e imprima a tabela do Dia 0 antes de começar.
