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Do livro Maturidade em TI · capítulo Abertura · O Caso de R$ 5 Milhões

Quanto custa uma equipe de TI imatura

Quanto custa uma equipe de TI imatura?

Por Vinícius Graciano ·

Uma equipe de TI imatura custou R$ 2,9 milhões por ano na operação que eu reestruturei: a conta de tecnologia era de R$ 5 milhões, com 22 pessoas e nenhum sistema em produção em três anos, e caiu para R$ 2,1 milhões com 12 pessoas entregando a cada duas semanas. A maior parte do desperdício estava em licença, nuvem, ambiente e contrato que alguém comprou por medo ou por moda e que continuavam na conta por inércia.

Esse é o caso que abre o meu livro Maturidade em TI. Conto aqui a conta e a ordem das decisões, que é a parte que você consegue copiar.

Onde o dinheiro de um time imaturo vai parar?

A empresa era uma gestora de recebíveis, braço de uma holding do mercado de capitais. Por ali passavam os dados que sustentavam bilhões de reais em operações do grupo. Se o sistema parasse, o grupo parava. O CEO chamava tecnologia de “mal necessário”. Em reunião, na frente do time.

Quando a conta virou minha, a primeira coisa que fiz foi ler, coisa que ninguém tinha feito. O desenho era este, em ordem de grandeza:

Linha Valor O que acontecia na prática
Time perto de R$ 200 mil por mês 22 pessoas, com arquiteto caro que ninguém via trabalhar e time remoto ausente da daily
Nuvem perto de R$ 120 mil por mês cloud paga em cima de servidores locais que continuavam derrubando produção
Terceiros R$ 700 mil num contrato serviço de enriquecimento de dados que a operação não sabia usar
Licenças e ambientes o restante SQL Server Enterprise “por precaução” e ambientes ligados sem uso

Somando tudo, R$ 5 milhões por ano. A empresa pagava dois mundos de infraestrutura e colhia o pior de cada um. Cada linha passava uma sensação: o arquiteto caro passava robustez, a licença Enterprise passava segurança, a consultoria de dados passava modernidade. Entrega, nenhuma delas passava.

Ninguém fazia as duas perguntas que desmontam orçamento inflado: o que isso entrega hoje, e quem decidiu que continua. Eu passei quatro anos fazendo essas duas perguntas.

Por que não cortei custo no primeiro ano?

Todo gestor que herda uma conta dessas ouve o mesmo conselho: corta logo e mostra resultado no primeiro trimestre. Fiz o contrário e quase não mexi na conta no primeiro ano.

Corte em cima de time imaturo desliga sistema sem aviso. A máquina que ninguém documentou para de rodar, o fornecedor que ninguém geriu vira refém, e quem tem alternativa no mercado vai embora na primeira turbulência. Sobra quem não tem para onde ir. Cortar é fácil; cortar e continuar entregando exige gente capaz de segurar a mudança.

A sequência que executei, e que defendo no livro inteiro, é gente, processo, conta, colheita. Nessa ordem.

O que mudou quando o trabalho ficou visível?

A primeira medida foi gestão à vista: todo trabalho num quadro público, toda demanda com dono, data e estado, todo compromisso de reunião escrito onde todo mundo lê.

Parece pouco, e foi um terremoto. O arquiteto que respondia “depende” para qualquer pergunta perdeu o esconderijo, porque “depende” funciona no corredor e não sobrevive a um quadro com o nome dele e uma data do lado. Em poucos meses, 90% do time tinha saído. Parte pediu demissão quando percebeu que o jogo tinha mudado; parte eu desliguei por comportamento, e não para economizar.

A reconstrução veio no pior cenário possível: pandemia, CEO exigindo presencial e orçamento apertado. Sênior de mercado desligava o telefone. Contratei pleno e júnior e formei. O time foi de 22 para 12 pessoas, com desenvolvedores na maioria, dois QAs e um núcleo pequeno de produto.

Uma linha eu tratei como intocável do primeiro ao último dia: treinamento. Fechei Alura for Business e Udemy for Business, fiz parceria com recrutamento especializado e desenhei a semana do time com espaço para estudar sem culpa. Cortei consultoria, licença e ambiente. Treinamento, nunca. Quem contrata potencial e não forma fica com frustração de crachá.

No método, uma troca: saiu o escopo fechado, que passava meses levantando requisito e não entregava nada, e entrou entrega a cada sprint. O time que estava havia três anos sem produção passou a mostrar algo rodando a cada duas semanas, pequeno e às vezes feio, na frente de quem usava.

De onde saíram os R$ 2,9 milhões?

Com o time estável, fui para a conta no segundo ano. Migrei para a nuvem o que precisava viver, com disciplina de custo, e desliguei os servidores locais. Desliguei os ambientes redundantes e ninguém sentiu falta. Cancelei a licença Enterprise sem uso e encerrei o contrato de R$ 700 mil de enriquecimento de dados, porque a empresa tinha aprendido a tratar o próprio dado.

Nenhuma dessas decisões exigiu genialidade. Exigiu perguntar item por item o que aquilo entregava e ter autoridade para sustentar o silêncio que vinha de resposta. Repare na ordem: quando cortei, o time já entregava toda sprint. Reclamar do corte obrigaria alguém a defender o desperdício em público. Ninguém tentou.

O que o time maduro entregou depois?

Nos anos 3 e 4 o mesmo time que “não entregava” colocou em produção quatro sistemas que estavam parados havia três anos:

  • BI reconstruído por engenharia reversa de um ERP defasado e sem documentação. Cortou mais de 70% do tempo de entrega de relatórios aos clientes.
  • Auditoria de lastro com machine learning. O processo manual levava mais de um mês e meio por operação e caiu para 15 a 20 dias. De brinde, os documentos sensíveis saíram do WhatsApp e do e-mail e foram para um sistema com trilha.
  • Robôs na conciliação bancária, deixando para as pessoas a análise e as exceções.
  • Financeiro fora do Excel, com relatório confiável e os erros de digitação que a planilha escondia expostos.

A média de casa do time passou de dois anos e meio, numa operação que antes recebia um pedido de demissão por semana. Parte da eficiência virou quadro menor, e faço questão de dizer como: deixei de repor quem saía quando o processo já cobria o trabalho, e não demiti ninguém para pagar automação.

O que acontece quando a empresa volta atrás?

Depois que saí, a direção decidiu economizar do jeito de quem nunca entendeu tecnologia. Tirou os sistemas da nuvem, voltou para o servidor local e devolveu processo para planilha. A qualidade caiu, as equipes foram embora e os clientes foram atrás delas. A empresa quase ruiu. O time que eu formei está hoje em empresas melhores.

Essa parte prova a tese mais do que o corte. A disciplina morava nas pessoas que praticavam a disciplina, e a empresa perdeu as duas coisas na mesma canetada.

Existe pesquisa que confirma esse custo?

Em 2000, Erik Brynjolfsson (MIT) e Lorin Hitt (Wharton) publicaram no Journal of Economic Perspectives um estudo com centenas de empresas americanas. Para cada dólar investido em tecnologia, a empresa típica carregava cerca de nove dólares em ativo intangível: processo redesenhado, gente treinada, forma de decidir. Eles também mostraram que mudar pela metade pode sair pior do que não mudar, porque a ferramenta nova briga com a prática velha.

O meu caso é um caso, com as condições daquela empresa. Ele não promete que os seus números serão esses. Desconfie de quem promete percentual de corte antes de abrir a sua conta.

Onde ir a partir daqui

Abra a sua conta esta semana. Escreva as três maiores linhas do gasto de tecnologia (gente, infraestrutura e licenças, terceiros) e responda para cada uma: o que isso entrega hoje, e quem decidiu que continua. A linha sem resposta é o seu primeiro alvo. Se você ainda não decide orçamento, leve as duas perguntas ao seu gestor aplicadas a uma ferramenta que o time paga e não usa.

O caso inteiro, decisão por decisão, abre o livro Maturidade em TI, e os capítulos seguintes transformam cada decisão em método.

Baixe os 22 templates do livro: o capítulo do caso de R$ 5 milhões vem completo no material gratuito.

Perguntas frequentes

Como saber se a minha equipe de TI é imatura?

Olhe três sinais: há quanto tempo o time não coloca nada em produção, quantas linhas do gasto de tecnologia ninguém sabe dizer o que entregam, e quantas pessoas pediram demissão no último semestre. No caso que eu conto no livro, eram três anos sem produção, contratos sem uso e um pedido de demissão por semana.

Cortar custo de TI resolve o problema de um time imaturo?

Cortar primeiro piora. Corte sobre time imaturo derruba sistema sem documentação e faz sair quem tem alternativa no mercado. A ordem que funcionou para mim foi gente, processo, conta e colheita.

Quanto tempo leva para amadurecer uma operação de tecnologia?

No meu caso foram quatro anos: um ano arrumando gente e método, um ano revisando a conta e dois anos colhendo entregas. É uma referência de um caso, com as condições daquela empresa, e não uma promessa de prazo.

De onde saiu este artigo

Do capítulo Abertura · O Caso de R$ 5 Milhões de Maturidade em TI, o livro em que eu escrevi o método inteiro. Aqui está a ideia aplicada; lá está o capítulo com os exemplos e os templates.

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